Linha cortante usada em pipas pode causar graves acidentes

Com a chegada das férias escolares, a atenção dos pedestres e principalmente de ciclistas e motociclistas deve ser redobrada, por conta de um perigo que vem do céu. As linhas de pipa com cerol (mistura de cola e vidro moído) costumam causar muitos acidentes neste período do ano, alguns gravíssimos.

Entre os principais perfis de vítimas, destacam-se os motociclistas, que estão expostos e muitas vezes não conseguem ver a linha. Para esses casos, é fundamental a instalação nas motos de antena “corta-pipas”. O equipamento é feito de metal e tem na ponta um gancho com uma lâmina, que corta a linha, funcionando como um escudo para o motociclista. Ele deve ser colocado em pelo menos um dos braços do guidom da moto e devidamente regulado na altura da cabeça do condutor.

O uso da antena “corta-pipas” já é obrigatório para motofretistas e mototaxistas, desde agosto de 2011, de acordo com resolução do Denatran (Departamento Nacional de Trânsito).

O diretor do Sindicato dos Motoboys do ABC, Carlos Eduardo Tavares, reforça a necessidade de uso do equipamento. “É obrigatório e de extrema importância, mas infelizmente há aqueles que preferem se arriscar”, declarou.

A empresa Jojafer Comércio de Peças e Acessórios para Motos, instalada em Santo André, é uma das que fabrica o artigo. “Parece ser algo simples, mas quem usa sabe da grande importância desse equipamento”, avalia o proprietário Leandro Jacob. Curiosamente, a Jojafer foi fundada em 2003, após o pai de Leandro presenciar um acidente fatal de um motociclista.

O comerciante não informou o número de peças vendidas, mas afirmou que os negócios chegam a quadruplicar nos meses que coincidem com as férias escolares. Ao todo, a empresa possui 30 modelos de antenas e os preços variam de R$ 4 a R$ 50.

“Arma poderosa”

Foi-se a época em que o jovem fazia o próprio cortante e “vencia” quem tivesse o melhor cerol – seja feito com lâmpadas florescentes moídas, pó de mármore ou pó de ferro. Há alguns anos no mercado clandestino, a “linha chilena” é muito procurada por quem gosta de empinar pipa e travar um duelo no céu.

Mistura de quartzo moído e óxido de alumínio, a linha é mais eficiente do que aquela que tem o tradicional cerol. É o que garante o estudante Luan Nunes, 23, de Santo André. “Não tem comparação. O cortante da linha é muito fino e sem falhas. Esse detalhe faz com que ela tenha um melhor corte quando tiramos ‘taio’”, disse. O “taio” é uma expressão comum entre os praticantes e significa o duelo entre duas ou mais pipas.

Mesmo sabendo do perigo, Luan afirma que é impossível soltar pipa sem cerol. “Tenho medo. Mas se não usarmos, a pipa não dura muito tempo no céu”, comentou. Luan gasta R$ 200 na compra de pipas e acessórios a cada período de férias.

Mesma opinião tem o administrador de empresas Lucas Balieiro, 26. “O mundo das pipas é como se fosse a lei da selva: cada um por si e corte quem e quantos puder”, disse. O administrador parou de soltar pipa há cinco anos, após cortar um das mãos e receber 40 pontos.

Os adeptos do uso de linhas com cerol não se intimidam nem mesmo com o fato de a prática ser considerada crime. De acordo com a lei estadual 10017/98 quem for pego fazendo uso do material pode se condenado a pagar multa, que varia de R$ 100 a R$ 1.500, além de responder pelo crime na justiça

O carretel de 500 jardas da “linha chilena”, equivalente a 457 metros, custa em média R$ 7. O maior, de 12 mil jardas, que corresponde a 10.968 metros, é vendido em carretilhas que saem na faixa de R$ 100.

Apesar de o comércio desse tipo de linha ser também ilegal no Estado de São Paulo, é muito fácil encontrar sites que vendem o produto, dificultando o trabalho da polícia. Pela lei 10017/98, quem vende linha cortante pode sofrer pena de um a cinco anos de detenção.

Para o delegado do 2º DP de São Bernardo, Roberto Menezes, os crimes acontecem por falhas na educação familiar. “Se o adolescente recebesse uma boa base familiar, esses crimes em geral teriam uma redução significativa”, declarou.