Tintim busca aventura nos cinemas

Foi por acaso que as aventuras de Tintim chegaram às mãos de Steven Spielberg. Era 1981 e ele estava lançando “Indiana Jones e os Caçadores da Arca Perdida” (1981) quando leu uma crítica francesa que comparava o filme às aventuras do personagem criado por Hergé.

Mas Hergé -pseudônimo do belga Georges Remi (1907-1983)- não era uma referência para Spielberg. “Fiquei curioso e resolvi conhecer os quadrinhos de Tintim. Eu não falava francês, mas consegui acompanhar as histórias graças às imagens. Hergé é um gênio e me apaixonei pelo seu universo.”

“As Aventuras de Tintim”, o filme, chega ao Brasil na sexta que vem. Mas foram quase 30 anos até que Spielberg pudesse levar às telas as peripécias em que o jornalista se envolve pelo mundo, sempre acompanhado do seu cãozinho Milu e do atrapalhado Capitão Haddock.

Em 1983, o diretor procurou o Hergé para comprar os direitos de Tintim, mas alguns dias antes do encontro o cartunista morreu. Sua viúva, Fanny, assegurou ao diretor que ele seria o único capaz de dar vida ao jornalista.

Fanny, porém, não poderia imaginar como Spielberg faria isso. O diretor arrisca dizer que “As Aventuras de Tintim” pode estar inaugurando um novo gênero de cinema, ao misturar animação tradicional com “motion capture”.

A captura digital de movimentos e gestos de atores era, na opinião de Spielberg, o único meio de dar vida aos personagens de Hergé.

“Atores usando próteses ou maquiagens pesadas seriam um desrespeito ao trabalho de Hergé e aos milhares de fãs de Tintim”, disse em entrevista para a divulgação do filme em Paris.

O desafio de Spielberg e de Peter Jackson (o diretor de “O Senhor dos Anéis” é o produtor de “Tintim”) foi o de usar a tecnologia de forma que ela não dominasse a atenção.

“O centro do filme são os personagens de Hergé, o seu universo e as suas aventuras. A tecnologia é só uma ferramenta para tornar isso possível”, afirmou Spielberg.

Jackson, que se diz fã de Tintim desde criança, concorda: “Nós não queríamos introduzir coisas novas, mas encontrar um meio de transpor o universo de Hergé da melhor maneira possível”.

O primeiro passo foi a escolha do elenco. Os produtores precisavam de profissionais que não se deixassem intimidar pela tecnologia de “motion capture”.

Pensando nisso, a escolha do nome para o papel do Capitão Haddock recaiu naturalmente sobre um grande conhecido de Jackson. Andy Serkis, o Gollum de “O Senhor dos Anéis”, é tido como um dos mestres na interpretação com “motion capture”.

“Para convencer, é preciso trabalhar com sutileza. Todo o trabalho de atuação se dá nos detalhes”, diz Serkis.
Jamie Bell (o eterno Billy Elliot) faz o papel-título. “Foi uma maratona. Mas trabalhar com essa tecnologia é muito libertador. Não é preciso pensar em maquiagem, guarda-roupa, objetos de cena.”

Adaptação

“As Aventuras de Tintim” é o primeiro filme de uma trilogia (nos outros dois, Jackson e Spielberg inverterão papéis). Seu roteiro se baseou nos livros “O Caranguejo das Pinças de Ouro”, “O Segredo do Licorne” e “O Tesouro de Rackham, o Terrível”.

“Seria muito difícil adaptar um só livro para transformá-lo num filme de 90 minutos. E tínhamos a responsabilidade de fazer com que o público se familiarizasse com o personagem”, diz Jackson.

Esse, aliás, foi um dos desafios da dupla: seduzir o público americano. Pois, enquanto na Europa Tintim atravessa décadas como uma referência da cultura infantojuvenil, nos Estados Unidos, é um desconhecido.

Bell, outro fã confesso de Hergé, até graceja com o fato: “Não me preocupo se o filme fará sucesso ou não, mas sei que teremos que educar o público. Muita gente pensa que Tintim é o cachorro”.