A solução para o ajuste fiscal brasileiro também terá que passar pelo lado da receita.
A conclusão foi feita por palestrantes de debate nesta terça-feira (12) em um Fórum organizado pela Escola de Economia da Fundação Getúlio Vargas (FGV) em São Paulo.
O ministro do Planejamento, Dyogo Oliveira, disse ontem no Fórum que vê uma “completa falência” do sistema tributário.
Ele e avalia que a arrecadação começou a cair antes da crise por causa de fatores estruturais e conjunturais com mesmo peso.
O importante seria refazer este sistema com bases mais justas. Hoje, nosso sistema é regressivo e penaliza os mais pobres pois está mais baseado em impostos sobre consumo do que sobre renda.
Nelson Marconi, professor da FGV, cita o dado de que na população que ganha até 3 salários mínimos, 89% da renda é tributável. Entre aqueles que ganham mais de 80 salários mínimos, 17% dos rendimentos são tributáveis.
Manoel Pires, pesquisador associado do IBRE e ex-Secretário de Política Econômica do Ministério da Fazenda, avalia que “aumentar impostos é inevitável, mas algumas propostas são ingênuas”.
Ele questiona as estimativas de arrecadação massiva com a volta da tributação de lucros e dividendos pois diz que com imposto, menos lucros e dividendos seriam distribuídos. Também acha ineficaz um imposto sobre riqueza, pois incidiria sobre estoque e seria declinante ao longo do tempo.
De qualquer forma, o que o debate sobre estas medidas mostra é a dificuldade de fazer mudanças em impostos com partidos desmoralizados e fragilizados diante de grupos organizados de interesse.
“Talvez essa tenha sido a tragédia dos últimos anos: perdemos a capacidade de articulação política”, lamenta Sérgio Fausto, cientista político e superintendente da Fundação Instituto Fernando Henrique Cardoso.
Ele cita o exemplo de injustiças tributárias como o baixo imposto sobre heranças e o uso de personalidade jurídica para rendimentos de profissionais liberais como advogados, médicos e jornalistas:
“Parte da classe média alta internalizou e nada de braçada nisso, pois se beneficia”.
Francisco Pires da Souza, da UFRJ, cita a reação causada pela sugestão de mudar a tabela do Imposto de Renda, que afetaria uma parcela minúscula da população. Mas vê espaço para mudanças:
“O Brasil é uma caixa de surpresas. Reformas que por muito tempo pareciam impossíveis estão sendo feitas”, citando a mudança na regra da poupança feita por Dilma e a reforma trabalhista feita por Temer.
Atualmente, circula na Câmara dos Deputados uma proposta de reforma tributária relatada pelo deputado Luiz Carlos Hauly (PSDB-PR) e apoiada pelo governo Temer. Seu foco é na simplificação tributária, sem mudar fundamentalmente o sistema regressivo.