Raios que caem no ABCD são os mais perigosos do Estado

Descargas elétricas formadas na Região são longas e contínuas, com poder de destruição mais alto

Os raios produzidos pelas tempestades que caem na Região são mais perigosos do que os que atingem o resto do Estado. A afirmação é da coordenadora do Laboratório de Eletricidade Atmosférica da FEI (Fundação Educacional Inaciana), Rosangela Gin. A professora está à frente de um estudo sobre a climatologia de tempestades e relâmpagos no ABCD desde 2005.

“Observamos que os raios que atingem a Região são atípicos, com longa corrente contínua. Isso os torna mais perigosos, já que aquecem mais os equipamentos que tocam e provocam mais fogo”, explicou. A incidência de relâmpagos no ABCD também é uma das mais altas do Estado, sendo que as cidades figuram sempre entre as 20 primeiras do ranking estadual.

A explicação pode estar na proximidade com o Litoral, uma área com muita umidade. “Os grandes centros urbanos, como as cidades do ABCD, formam uma ilha de calor, favorecendo a evaporação da água. Associada com a brisa marítima, a tendência é criar tempestades mais fortes”, ressaltou Rosangela.

A especialista destacou que os últimos dois anos foram fora dos padrões por causa do fenômeno climático La Niña, que resfria as águas do Oceano Pacífico. “Janeiro e fevereiro, que são os meses que historicamente apresentam maior incidência de raios, não devem manter o título. O La Niña tem tornado as tempestades mais espaçadas ao longo do ano e mais concentradas”.

Mortes – A cada 50 mortes por raios no mundo, uma é no Brasil. São 130 mortes por ano, mais de 200 feridos e prejuízos anuais da ordem de R$ 1 bilhão. Cerca de 80% das circunstâncias em que acontecem mortes por raios podem ser evitadas se as pessoas souberem como se proteger.

O Inpe (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais) disponibiliza em seu site (www.inpe.br) a Cartilha de Proteção contra Raios, elaborada de forma simples e didática. Entre as dicas, nunca permanecer em locais abertos ou junto à água (praias, piscinas, lagos etc.) durante as tempestades. Deve-se sempre procurar abrigo em veículos ou edificações.

Região já foi atingida por mais de 5 mil raios desde janeiro; Mauá encabeça

De 1º de janeiro até 18 de fevereiro deste ano, um período de 49 dias, o ABCD já foi atingido por 5.030 raios, de acordo com levantamento do Grupo de Eletricidade Atmosférica do Inpe (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais), o equivalente a 102 incidências por dia. As altas temperaturas do verão tornam a frequência das descargas elétricas mais comuns nesta época do ano.

Em números absolutos, São Bernardo é o município que contabilizou o maior número desse tipo de fenômeno: foram 1.792 vezes, total de 4,3 raios por km². Proporcionalmente, porém, é Mauá que mais sofreu com os raios até agora. Foram 665 descargas registradas no município, média de 10,6 raios por km².

Santo André, Diadema, Ribeirão Pires e Rio Grande da Serra fecharam a contagem com média de 7 incidências por km². Já São Caetano, que viu 63 raios tocarem o solo, ficou com média de 4,2 descargas elétricas por km². Apesar de assustarem, os números estão dentro da normalidade, esclareceu Daílton Guedes, pesquisador do Inpe.

“De acordo com nossos estudos, o Estado de São Paulo teve uma média de 9,29 raios por km², entre 2000 e 2009, última década analisada. Os números do ABCD estão dentro da expectativa para a Região, que fica em um dos locais de maior incidência de raios do Brasil”, avaliou. A crescente urbanização, aliada à forte evaporação da água, que aumenta a formação de nuvens de tempestades, levam às descargas elétricas mais frequentes.

Brasil é líder mundial em incidência do fenômeno

O Brasil é líder no ranking mundial de incidência de raios, devido a sua localização no globo. “Esse título se justifica porque estamos em uma zona tropical, quente e úmida, o que favorece os raios. Também temos de levar em conta o tamanho do nosso País, de dimensões continentais. O Brasil recebe, por ano, 50 milhões de raios”, explicou Daílton Guedes, pesquisador do Inpe (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais).

No País, o município que mais contabiliza descargas elétricas é Porto Real, seguido por Barra do Piraí, Valença e Rio das Flores, todos no Rio de Janeiro. Já no Estado de São Paulo, Itaquaquecetuba é a cidade mais afetada, com média de 13,1 raios por km². Entre os municípios do ABCD, Diadema é a primeira que aparece na listagem, somente na 410ª posição nacional, com média de 11,4 raios por km². O período analisado é entre 2000 e 2009.